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Dialectos...

Confessado por Mulherde30, em 23.05.07

miguel_pereira.jpg
Fotografia: Miguel Pereira

Escuta-me. Vou falar-te, quem sabe me consegues ouvir...
Vou falar-te de coisas que me vagueiam a alma. Deve querer dizer que vai ser longo...

Um dia disseste-me que estavas a jantar sozinho. Eu, ca por dentro, senti que a vida nao pode ser assim e fui ter contigo.
Foi assim que nos conhecemos pessoalmente, e desde esse dia nao nos largamos mais.

Entre uma conversa e outra, disse-te que quando perdemos o pe, quando ja nada nos faz sentido, quando a nossa volta tudo se desfaz, temos que tracar um objectivo. Um daqueles quase impossiveis para nos preencher a mente e nao pensarmos em coisas que nunca nos levam a lugar algum.

Tu fizeste isso. Eu e que nao sabia.

Tempos depois, dizias-me tu: gosto de ti.
E eu a nao querer aceitar esse amor.
Tu a dizeres-me que querias namorar comigo.
E eu a pensar que ja nao sabia o que era namorar, ja nao lembrava.
Eras tu a dizeres-me que deste por ti a gostar de mim.
Era eu a nao saber o que fazer ao teu sentimento. A dizer-te que nao e a nao querer que fosses embora, mesmo assim.
Eras tu com voz doce a enrolar o meu nome em algodao cor de rosa, era a tua mao na minha e os meus olhos mergulhados nos teus, a dizeres que sim.
Era eu a dizer-te que nao era bem assim, a dizer-te que nao, que nao fosses por ai.

Mas tu foste.

Tu, desse jeito simples de veres o mundo.
Tu, a esmiucares as palavras para que podesse ver a vida pelos teus olhos. Entrar em ti e saber. Sem me poupares nas palavras e, acredito, a nao me castigares com mentiras.
Tu, homem crente. Que acreditaste por nos dois.
Tu, homem sonhador. Que falavas dos teus sonhos sem timidez, que colocavas nas palavras tanta fe, tanta conviccao, que ate eu, quase acreditava.
Quase acreditava que um nao, poderia, quem sabe, ser sim.

Mas disse-te que nao. E o meu nao, nao te fez desistir.
Mantiveste-te ai. Esperando. De maos tremulas e nervosas, de olhos meigos e brilhantes, de sorriso rasgado.

- Que faco contigo?
- Abandona-me.

Mas tu, permaneceste. Nao foste embora como todos os outros e dei-me conta, que te fazia o que todos os outros me fizeram ao negar-te a possibilidade de sermos.
Tu, a falares-me, em conversas de madrugadas, do que sentias, do que pensavas.
Eras tu a roubar um beijo meu.
Era eu a dizer-te outra vez que nao, porque em breve ja nao estaria ai.
E eu depois, sozinha, a pensar que tu eras o que eu tanto quis.

E tu... e eu. E nos com o mesmo direito de tentar ser feliz. Numa felicidade daquelas prolongadas, que ha muito nao nos banhava os pes.

Mas o amor acontece... dizem.

Tambem eu gosto de ti.
Um dia, de impulso, beijei-te.
Porque ja antes disso tinha visto nos teus olhos o reflexo do meu coracao. E uma palavra escrita, pequenina.
Foi nessa hora, na praia, nesse segundo suspenso no tempo, que o peito se me apertou ca por dentro e eu vi. Quando disseste o meu nome. E era so o meu nome. E eu senti.

A unica coisa que podemos fazer as oportunidades, e agarra-las.
Foi o que fiz. Segurar uma oportunidade que a vida me deu. Dar-te uma oportunidade, dar-me uma oportunidade.
Tentar. Saber como e sentir um sentimento dividido e partilhado. Reciproco.
Em jeito de acordo, 3 semanas. Como se fossem as ultimas.
E aproveitamos cada hora, cada dia, cada noite.
Vivemos muito e muito depressa. Tinhamos os teus sonhos e as minhas asas. Tinhamo-nos. E nao era preciso mais nada.

E vim embora.
Nao foi facil, despedir-me de ti.
So queria que seguisses a tua vida, que nao esperasses por mim. Porque vim embora sem data para voltar e nao queria saber-te infeliz. Nao te queria como naufrago de mim nem destroco de nos.

Penso tantas vezes neses dias, nessas noites. Percebo agora que me encantei. Nao pelas palavras que disseste, mas pelos gestos que sempre te acompanharam as palavras.
Lembro as horas em que o teu corpo nao era outro corpo, mas uma continuacao do meu. Nesses momentos em que em cada beijo me roubavas um pouco mais de alma. Horas em que o tempo se congelava em cada abraco e nas outras em que galopava sem nos ligar importancia a urgencia do amor.
E nas horas de riso facil. Criancas grandes.
E nas horas de silencio-deserto. Do esvoacar de mil borboletas no estomago.
Dois numa esfera, a fazer parte do mesmo mundo, numa linguagem estranha aos outros e para nos, tao natural.
E o coracao a apertar-se-me por saber, ca dentro, no fundo onde faz eco, que ate as grandes coisas que vivemos, sempre tem prazo de validade carimbado.
A olhar-te por vezes, de soslaio. A ver-te dormir, a ficar acordada a ouvir o teu respirar, a adormecer enroscada no teu peito.
Aquele aperto a romper-me... por saber o momento em que nasceu aquela especie de amor e a sentir o aproximar da hora do fim, conhecendo a data em que tudo se iria desfazer.

E a perguntar-me se nao seria aquilo, por hipotese, se nao existiria ali aquela magia que todos procuramos e muitos de nos partem sem conhecer.

Fui feliz, sabes? E nao esqueci nada.
Ficou tudo aqui.
Trouxe-te comigo... e por isso que e possivel abracar-te de longe, sem dares conta, enquanto dormes.

Mas parti. Porque precisava. E o medo que senti deu-me asas para chegar.
Parti porque tinha horas em que me sentia pequena demais e outras a sentir que de tao grande, nao encontrava lugar onde coubesse o meu coracao.
Parti porque precisava sentir-me assim, num quase abandono daquilo que sou. Vasculhar-me por dentro, tracar caminhos, tentar perceber. Ou acreditar no destino e deixar-me levar.
Para ter certezas, para ver um pouco mais do mundo. Para ser desconhecida e poder escolher sem nunca me perder.
Ha caminhos assim... que preciso fazer sozinha, nalgum lugar estranho, onde eu mesma sou estranha, na companhia de outras almas tao solitarias quanto eu.
Sao as viagens alucinantes que fazemos ao centro de nos, longe do que nos e conhecido.

E no entanto, nunca me senti so. Como se estivesses aqui. Entendes-me?
E sempre que encho os olhos com qualquer imagem magnifica, digo-te baixinho:
- E lindo, nao e?

Esta sou eu. O tudo ou o nada, sem meio termo. Com a vontade de fazer tudo devagar num jeito de quem saboreia, para memorizar. E outras vezes eu, sem tempo a perder. De coracao selvagem a correr desenfreado, a galgar-me as margens do peito.
E o que somos, a essencia, nao muda. Onde quer que esteja, serei eu em qualquer lugar. Mesmo que haja lugares onde e mais facil sermos nos.
Hoje sinto que estou mais perto daquilo que de melhor algum dia poderei ser.
E nao quero voltar atras. Porque percebi, consegues entender-me?
Quero continuar neste caminho seguindo o meu coracao, mesmo quando insiste em levar-me por caminhos sinuosos, por onde o deixo levar-me mesmo assim.
Esta sou eu. E nao quero ser doutra maneira.


Em Malibu, fiquei ali quieta a ver surfistas tao quietos quanto eu.
Eles a espera de ondas inexistentes e eu a deixar o meu coracao voar.
Um dia de nevoeiro. Eu a pensar em ti.
Nesse dia, escrevi no meu caderninho:

"Sabes, quando estou longe de ti, como a esta hora, tenho a certeza que posso viver perfeitamente sem ti, como fiz ate agora.
Mas inevitavelmente, vens-me a memoria. O pensamento rasga a distancia e lembro-te o cheiro, a voz, o riso.
E quando recordo fragmentos do que vivi perto de ti, parece-me que nao serei o que tenho a ser se nao for ao teu lado, onde sinto que nao me falta quase nada.
Mesmo que me jurassem que com certeza seria feliz sem ti, mesmo que me garantissem uma vida perfeita..."

A vida que por vezes nos parece injusta quando coloca longe demais quem so queremos perto. Que coloca um amor no nosso caminho para depois o tirar da mesma maneira. - dizias-me tu, revoltado.
Mas podemos lutar contra essa vida que nos parece madrasta, sabes?
Somos nos que vamos construindo o caminho. So precisamos decifrar os sinais...

E e por isso...
Porque um dia te disse que se regressasse a Portugal seria por mim.
E e.
Porque nos escolho a nos.
Porque prefiro ter-te sem mais nada que ter tudo sem fazeres parte da minha vida, sem ter o brilho dos teus olhos ou o bater silencioso do teu peito.
Porque me fizeste acreditar que e possivel, se for por amor.
Porque compreendi, aqui de longe, o quanto te sinto a falta.


Sei que a distancia sempre nos ajuda a esclarecer sentimentos.
Sei tambem que o destino pode magoar uma pessoa, tanto quanto a pode abencoar.
Fomos abencoados, nao fomos? Sempre que eramos nos?

Que sentido faria partir, se nao existisse um regresso?
E disso que te falo. Do meu regresso.
Vim, vi e conheci.
Fiquei maior. Mas na grandeza fico pequena porque aqui nao e o meu lugar.
O meu lugar e onde me querem bem, onde tenho os abracos, as vozes amigas e os sorrisos. Onde tenho esse rio que desagua no Atlantico.
O meu lugar e onde mora o meu coracao.
E o meu coracao mora pertinho do teu.

Eu nao sei... nao sei durante quanto tempo habitaremos nestes alicerces que construimos.
Nao sei se durara uma semana, um ano, uma vida.
Sei apenas que gosto de ti, que sinto que gostas de mim.
E nao preciso de nenhuma outra certeza para saber que rumo seguir.

Se e amor!? Nao sei. Vamos descobrir.
Devagar, como deve ser, como se devem viver todos os amores.

Dia 24 de Maio, pelas 8.30 da manha, chego ao meu pais. Se poderes, vai ao meu encontro que as saudades ja so gritam pelo teu abraco e a boca so murmura por beijos teus.

Espera-me. Estou a chegar...


Finger Tips

PS: Depois dos abracos, depois dos teus beijos, leva-me de mao dada a tomar cafe numa esplanada virada para o mar...

publicado às 05:56

Renascer...

Confessado por Mulherde30, em 15.05.07

P4270256.JPG
Fotografia: euzinha

..." Aprendi com a Primavera a me deixar cortar...
E a voltar sempre inteira..."

publicado às 06:00

A maior mae de todas: a minha.

Confessado por Mulherde30, em 13.05.07

jose cortez.jpg
Fotografia: Jose Cortez

Hoje, aqui, e dia da mae...
E tu mae, tao longe.
E tu mae, tao perto.
E tu mae, com esse amor sempre tao grande.
E tu mae, que foste o meu principio, que me ajudaste a ser maior, com esse amor tantas vezes silencioso e sempre presente. (Nao serao assim todos os grandes amores?)
E tu mae, que vieste comigo...
Que te ouco nesse jeito de estares bem, so porque eu estou bem.
E tu mae... que ainda me levas o pequeno almoco a cama, que me acordas com a voz doce com que embrulhas o meu nome.

E tu mae, que vieste comigo com esse sorriso mergulhado em lagrimas quando te disse " ate ja".
E tu mae que ficaste a acenar-me um adeus.
E eu mae, que trouxe as tuas palavras comigo: "vai... se e isso que queres. Para que nunca precises dizer: se eu fosse mais nova! Vai... para que nunca sintas que se fosse hoje... e seja demasiado tarde. Mas volta..."
E eu mae... que te sinto tanto a falta!

Sabes mae... o teu amor...

publicado às 08:00

No silencio ouvi o meu coracao...

Confessado por Mulherde30, em 12.05.07

sentir o vazio.jpg
Fotografia: um estranho

..."A felicidade nao esta no que acontece mas no que acontece em nos desse acontecer.
A felicidade tem que ver com o que nos falta ou nao na vida que nos calhou.

Devo dizer-te que nao me falta nada, quase nada..."

Vergilio Ferreira

publicado às 03:51

Numa so palavra...

Confessado por Mulherde30, em 11.05.07

1009395.jpg
Fotografia: Fernanda Bueno

Ocupo os dias com mil imagens que quero gravar na memoria.
Quando me deito, percebo porque e que so em Portugues existe a palavra saudade...
Trouxe comigo os olhos e a alma, mas sinto que o meu coracao, esta tao longe daqui!

Sinto a falta... de poder sentar-me em frente a um computador onde podesse escrever as palavras com os respectivos assentos.
De vos poder responder um a um (um dia compenso-vos) como sempre fiz sem que para isso tenha que pagar uma fortuna.
Sinto a falta da familia, dos amigos, dos amigos sem voz, nem rosto, mas sempre presentes nas sombras.
Sinto a falta de um gostar doce e tranquilo que chegou sem avisar.
Sinto a falta do cafe, das esplanadas, das saidas nocturnas, das conversas sem nexo, dos risos partilhados na mesma lingua.

Sinto a falta do azul do ceu do meu pais, das cores do por do sol, dos verdes profundos...
Sinto a falta dos sabores e dos odores.
Sinto a falta...
Mas se disser que sinto uma saudade a moer-me devagar, fica tudo dito.

Como confissao: preciso confessar-me...


publicado às 00:18

Catedral...

Confessado por Mulherde30, em 02.05.07

Picture 049.jpg
Fotografia: eu mesma


A caminho do Grand Canyon, veio-me a memoria, uma frase batida...
Atravessei um deserto a cantar para ouvir alguma coisa falada em Portugues, sentindo-me uma estranha numa terra estranha, onde ninguem me ve passar.
E senti as palavras que dizia, procurando ca por dentro de mim, essa Catedral, esse templo onde guardo um lugar que vai resistir a distancia e a saudade...

"O deserto que atravessei
Ninguém me viu passar
Estranha e só nem pude ver
Que o céu é maior

Tentei dizer mas vi você
Tão longe de chegar mas perto de algum lugar

É deserto
Onde eu te encontrei você me viu passar
Correndo só nem pude ver
Que o tempo é maior

Olhei pra mim
Me vi assim
Tão perto de chegar
Onde você não está

No silêncio uma catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir
Eu sei
Vai ter que existir
Vai resistir nosso lugar

Solidão
Quem pode evitar
Te encontro enfim
Meu coração é secular
Sonha e desagua
Dentro de mim
Amanhã, devagar, me diz como voltar

Se eu disser
Que foi por amor
Não vou mentir pra mim
Se eu disser
Deixa pra depois
Não foi sempre assim
Tentei dizer... "


E sim, se eu disser que foi por amor, nao vou mentir...

publicado às 01:32


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