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As cartas....

Confessado por Mulherde30, em 24.01.06

sonhos-proibidos41.jpg
Fotografia:?


Foi quando arrumava, por ordem de leitura os livros que li no ano passado que as encontrei.
Caíram-me no regaço por um acaso. Ou talvez não.
Talvez fosse mesmo para ver toda a evolução disto a que chamo vida, deste espaço que muda e que nos faz mudar. Destes momentos que nos transformam, que não nos deixam ser amanhã o que somos hoje. Desta luta constante em que muitas vezes, pensamos ser vencedores e afinal somos vencidos, quando de repente tudo muda de lugar.
Destes momentos que passam e ficam ao mesmo tempo...uns a correr, outros devagarinho, lá fora e dentro de nós.
E um dia, ao vermos todo o caminho, apercebemo-nos que muitas vezes, quem perdeu, afinal, foi quem mais ganhou.

Quantas voltas a vida dá...quantas voltas dou eu sem sair do meu lugar...


As cartas. Todas as que te escrevi, todas dobradinhas cautelosamente dentro do livro. As cartas que nunca te enviei.
Assim não valem de muito, não é?
Mas na verdade não escrevi nada que não te diria se me tivesses dado a oportunidade. Nunca tive a oportunidade, nunca enviei as cartas, tudo ficou assim, a pairar.
Como tantas outras histórias de amor. Aquelas que nunca foram, as que podiam ter sido e não foram,as que foram e que não deviam ter sido. Todas as histórias de amor são iguais, não concordas?


Peguei nelas, fui para o banco que está na beira do rio e fiquei lá, ao sol, a reler cada uma das palavras.
Hoje já não me parecem ser assim tão pequeninas, como naquele tempo. Eu pensava que por mais que escrevesse, dificilmente chegaria ao patamar do meu sentimento. Achava-te grande demais, a paixão imensa...e todas as palavras pequeninas.

E hoje... tudo ao contrário. Tu é que, afinal, és pequeno. O meu sentimento grande, mas já não por ti, as minhas palavras ainda maiores...e tu lá em baixo reduzido.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, dizem. Eu concordo. Como tudo se resume a nada.
Recordo aqueles castelos imensos das histórias de encantar...imagino-os com o passar dos anos, sem serem cuidados. Um dia, serão ruinas. Tudo aquilo que eu pensava ser paixão, está assim, em ruinas. E sabes?, nem me importo com isso, nem me dou ao trabalho de mexer uma pedra para compor melhor o cenário. Já não quero saber. E quando nos desinteressamos, já pouco importa.

E fico feliz...sinal que já não dóis, sinal que já não espero, sinal que finalmente aceitei que ver-te nunca mais, não custa tanto assim.
Corroía-me pensar que nunca mais te veria. Mas inevitavelmente passei pelo momento de aceitar essa verdade, mesmo sendo cruel, para que tudo ficasse mais suportável. Nao sei ao certo quando foi...penso até que nem dei por isso. Devem ser aqueles processos de transformação que acontecem connosco enquanto andamos distraidos. E eu ando sempre distraida.

Li tudo numa calmaria de uma tarde solarenga, na beira do rio que banha esta cidade linda em que moro. Havia ali uma nora, sabes? Ainda me recordo dela...de roda, de roda, sempre à nora. Eu tinha medo de cruzar a ponte a pé. Parecia-me tão alto! Afinal, é baixo. Quem vê o rio no Verão, não imagina que no Inverno galga as margens e transforma a baixa da cidade num caos. E lindo, mesmo assim.
E na praceta havia um coreto. Era lindo...subia lá e imaginava o que era ser-se grande. Às vezes acho que sempre fui grande, que antes de ser já o era.
Lá em cima, na igreja, vê-se todos os campos que ladeiam o rio.
Ninguem sabe muito bem se foi o rio que deu o nome à cidade, se foi a cidade que deu o nome ao rio. Nas fotos que ainda existem num ou outro local, ou até mesmo nos painéis de azulejos, vêm-se os barcos que por aqui passavam com o sal trazido daqueles montes que reluzem ao sol, que fazem doer os olhos da brancura, lá longe, nas salinas.... ha muitos, muitos anos.

É assim que me pareces tu, hoje. Como se te conhecesse apenas porque te vi numa fotografia, ou num painel. Tudo o resto é fruto da minha imaginação. As palavras, o compromisso que me pareceia ter sido feito num silencio...tudo. Até tu eu imaginei...
Hoje é assim que tudo me parece.

Ficaste tão longe, tão lá atras. Espero que apenas que o sofrimento que me causaste tenha sido em prol da tua felicidade. As respostas já as tenho. Encontrei-as, dei-as a mim mesma. Inventei-as.
Acho que agora, que já não me vagueias os sonhos, nem me assombras os pensamentos, pensarei em ti com carinho, talvez com um sorriso, como ao ler as cartas que te escrevi.
Agora que sei que não te verei, arrumei tudo de vez. Os mails? Lixo.
As fotografias? Servem para nada...sei que um dia qualquer já nem recordarei ao certo as tuas feições. Talvez fique um pormenor ou outro. Ou talvez fiquem as mentiras. Cada uma delas associada a um momento. Aquelas que só mais tarde soube e as outras: as que fingia acreditar.
E assim, tudo colocado fora porque já não interessa, há que tirar o teu nome da lista telefónica. É bom ter espaço para as pessoas importantes.

Custou...mas saiste daqui. Deixaste as tuas marcas, não muito bonitas por sinal.E eu odeio cicatrizes. Agora podes fazer todas as histórias. Podes fazer a tua história. Que seja, pelo menos, bonita.
Ama. O amor torna-nos melhores, sabias? Talvez aprendas a ser maior. A teres a coragem de ficar, de pagares para ver em vez de virares as costas e te transformares naqueles filhos da puta que dizias ser para todas as outras e que não querias ser para mim. Pois. Deixa-me dizer-te: foi isso mesmo que foste: um filho da puta.
Agora que tudo passou, foste apenas um. Mais um. Gostei-te como gostarei de todos quantos venham a entrar na minha vida. Um dia qualquer, talvez eu pense de novo em ti.


Não me desfiz das cartas, não. Vou guardá-las no mesmo sitio, dentro do livro. Verás que um dia qualquer voltarão a cair-me no regaço. Irei lê-las de novo e perguntarei: mas quem era este? É que o tempo passa...e nós sabemos que só as coisas grandes e verdadeiras permanecem. E ao ler, irei ver como por vezes somos patéticos ao sofrer por quem nada vale. E irei rir...de tanta parvoice que te escrevi, com o coração apertadinho e triste com os olhos rasos de água. Se alguem lesse, imaginaria talvez que mataste toda a minha familia, amigos e extra terrestres amigos...e eu ali, a depenar-me em lágrimas, como Madalena arrependida. Mas não foi nada disso. Foi apenas a tua covardia que me fez sofrer. A falta de coragem de me dizeres, simplesmente, que não me querias ver mais, que não gostavas de mim, que tinhas encontrado o verdadeiro amor. Ou quem sabe, que tinhas decidido ir morar para a lua porque lá o ar faz bem à pele e tem uns ginásios óptimos e que, paciência gostavas muito de mim, mas teria que ficar uma história a meio porque no foguetão só havia um espaço vago. E eu ia atirar-me para o chão a rebolar a dizer que ia disfarçada dentro da bagagem.... enfim, um filme qualquer. Tenho esta imaginação que me obriga a andar sempre com as luzes ligadas e de câmera na mão. Que fazer? Sou assim mesmo...

O tempo passa. Tudo passa. Fica cá dentro uma coisita ou outra, tudo sem muita importância.
E vejo-me ao espelho, orgulho-me de mim. Vê tu. Encontraste-me num momento tão frágil, tão crente, tão débil... e agora olha-me. De novo eu. Lutadora. Com a coragem que nunca me abandonou.
Basta fazermos um esforço que conseguimos arrancar todo o que nos faz doer, cá dentro, no fundo, onde faz eco.
O certo é gostar de quem gosta de mim. E tu, nunca gostaste.


Uns meses depois, depois de tanta tinta gasta em papel reciclado, agora que foste, tudo o que tenho a dizer-te resume-se a poucas palavras.

Fo**-te e sê feliz.
É que eu ia odiar saber que toda a minha dor foi em vão.

publicado às 23:22


Confessionário

De ana a 25.01.2006 às 01:19

UFA!!!

Sente-se o peso da desilusão...
Nunca ajuda saber que não somos os unicos a sofrer desse mal... porque cada um sente a sua dor á sua maneira.

ter coragem para seguir em frente, nunca parar de acreditar num dia melhor...FORÇA! sei que a tens e vais ver... um dia ficará mesmo tudo bem...

porque todos mereçemos uma segunda oportunidade e quanto aos canalhas que nos magoam, usam e nos jogam fora como se fossemos coisas.... QUE SE FO..AM...TEMOS PENA mas tou nem aí pra vocêS!!!

continua... gosto de te ler. visita o meu blog, pode ser que gostes. beijinho.

De bcool a 25.01.2006 às 02:24

que grande testamento ... e já não te faz sofrer, imagino se fizesse, eheheh ... andavas desaparecida ... é verdade, já acabaram as obras na ponte ou aí ainda está a grande confusão ? beijinhos ...

De Bruno a 25.01.2006 às 09:09

Olá Raquel...Por vezes é mesmo assim entregamo-nos a quem não nos deviamos entregar...e depois o que acontece? Magoa, tristeza....Mas por vezes é bom relembrar os relacionamentos passados...Mas lembra-te Que os amores que podiam ter sido e não foram, não foram porque não podiam ser. Que os encontros não foram por acaso. Que as despedidas deixaram as marcas que o tempo não fez esquecer, mas que sarou...Entendes estas minhas palavrinhas? Beijinho grande

De Linger a 25.01.2006 às 10:11

Oi Raquel,tambem tenho as minhas cartas guardadas especialmente aquelas que me disseram muito coisa ao longo da minha ainda curta vida.São lembranças de riqueza igualavél.Beijos.

De fad a 25.01.2006 às 10:34

Puxa não pensei que uma mulher fosse tão amarga...
Eu acho que amor é nunca dizer que não valeu apena...
Foi bom enquanto durou.
Sê feliz
Jokas
Fad

De amanda a 25.01.2006 às 13:42

Sabes que mais? que se foda mesmo! Estás no bom caminho e isso é o que interessa. Beijos

De Katia a 25.01.2006 às 13:45

Olá Raquel, já que falas em Sal, nas salinas da nossa cidade, o Sal com o passar dos anos vai diminuindo, as Saudades é igual, guarda os momentos bons da tua vida os maus momentos deixa para trás, não queiras sentir o sabor do Sal nos teus olhos, as tuas lágrimas devem de ser mais doces e não tão amargas agarradas a um passado.
Como amigo,, VIVE A VIDA.

De karina oliveira a 25.01.2006 às 14:06

eram mesmo essas palavras q estava a precisar ler hoje. Encontrei nelas a coragem para vencer, para lutar por mim porq se nao o fizer ninguem o fará. estou disposta a tudo menos a chorar como uma Madalena! Mereço ser feliz e quem não o quiser ser comigo que se foda! Um grande beijo e obrigada!

De Fazer-te_Vir a 25.01.2006 às 19:46

Não há dores em vão... Apenas as ilusões são em vão !!! Beijo nos seios !!!

De Luna__a a 25.01.2006 às 21:51

Foi ao acaso que encontrei o teu blog. Andei a dar uma vista de olhos e acho que tens um grande talento para a escrita, adorei os teus textos, acho que todos nós ja passamos por algo que neles está descrito. Por vezes a vida nem sempre nos sorri, mas cabe-nos a nós dar a volta por cima e pelo que eu li acho que aos poucos estás a dar essa volta, isso é muito bom porque por vezes por mais que tentemos esquecer é impossivel. Eu acredito muito no amor, e acredito que todos nós temos algures a nossa outra parte, acredito que tu encontrarás a tua.

Beijinhos ***

Diz lá


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