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Rosa Agreste...

Confessado por Mulherde30, em 07.10.07

rosa brava.jpg
Fotografia:?


Engraçado como te lembro tantas vezes…
Sempre que passo por uma casa longe de tudo, lembro de ti. Sempre que passo por uma localidade e vejo uma rapariga nos trabalhos árduos da agricultura, continuo a lembrar de ti.
É um sentimento estranho… querer saber-te bem e feliz, mesmo sabendo tão pouco de ti, mesmo tu nada sabendo de mim.


Rosa Brava. Foi com este nome, através de um documentário, que te deram a conhecer ao mundo.
Eu vi-te, sentada no sofá. Atenta. E chegou-me uma vontade de te buscar, sabes?
Dizer-te e mostrar-te tantas coisas que queres ver. Dizer-te que o mundo não é bem assim. Dizer-te que seguir sonhos sempre nos traz um sentimento de dor, mais tarde ou mais cedo. Mostrar-te primeiro para que depois pudesses escolher.
Tivesse eu uma varinha de condão…

Senti aquela tristeza miudinha, de me tentar colocar no teu lugar e saber como é. Fiquei na dúvida se seria feliz ou não. Creio que não. Que com 16 anos, também eu queria ir até ao pôr-do-sol. E mesmo agora, sempre que penso em ti, penso também como seria se fosse eu… porque eu, ainda hoje, tenho essa vontade de voar.
Tu queres conhecer, descobrir. É mais forte que tu. Queres ir além daquilo que os teus olhos vêm. Por isso és brava. Forte. Corajosa.

Eu chamar-te-ia Rosa Agreste. Porque te vi o sorriso tímido, a inocência, uma certa pureza de menina, uma transparência nas palavras que enternecem. Tal como a natureza que te rodeia. Uma menina em mulher feita. Com garra. Com gana. Mais que isso: com sonhos. E acredito que serão esses sonhos que te farão guerrear e partir para longe…


Ao ver-te, naquele dia, pensei para mim que se te aventurasses nas fronteiras que te são impostas pelos teus pais, talvez encontrasses o Hermínio. O Hermínio também é pastor, e tal como tu, vive algures perdido na Serra da Estrela. Tem o dobro da tua idade, já não pede permissão para ir à cidade sair com amigos ou para ir ter com as brasileiras.
O Hermínio ouve Quim Barreiros enquanto tu sonhas ao som das músicas da Floribela. Mas têm um sonho em comum: alguém para amar, alguém que vos ame. Alguém que vos dê companhia, que vos encha os dias, que lhes dê uma razão. E não seremos todos comuns nesse desejo?
A vida é muito mais dura a sós. Eu sei…

Dizias entre um sorriso e outro que sonhas com rapazes… que desejavas que um rapaz te entrasse pela janela. E não adiantas pormenores mas dizes timidamente que são “só coisas boas”. Eu não sei ao certo o que queres dizer com isso. Já não lembro dos pormenores dos sonhos que tinha com a tua idade. Mas acredito em ti… devem ser só coisas boas.

Uma franqueza que chega a doer ouvir-te. Uma sinceridade que já não lembro de presenciar. Dizer o que se sente, se pensa, se sonha. Sem pudor. Sem teimar em esconder.
Bom, era que fosse para sempre assim. Mas não será. Inevitavelmente mudarás. Enquanto penteias os cabelos compridos e loiros na soleira da porta. Enquanto abraças o Pantufa e mastigas pastilha elástica. Enquanto ficas no teu quarto à noite, acordada, a embalares-te pelas coisas boas dos sonhos. Enquanto lavas o rosto na água fria do tanque, pela manhã. Enquanto o teu corpo de já mulher, enfeitando o teu coração de ainda menina…
Entre um dia e outro, entre uma atitude e outra, entre uma desilusão e outra, mudarás.


Queres casar. Para mim, queres apenas sair daí. Vês o casamento como a passagem, o passaporte, o bilhete de lotaria.
Sentes-te escrava num mundo de chão e céu só teus. Sentes-te presa entre montes e vales. E acreditas que entre muralhas e muros e barreiras da cidade, te sentirás livre. E mesmo sem chão nem céu serás senhora.
Ainda não sabes que é muito mais difícil lidar com as pessoas que com as vacas, as ovelhas ou as cabras. Sentes que o ar que respiras no alto da serra, te sufoca. Crês que na cidade sentirás alivio sempre que respirares.
Sentes-te sozinha… mas não sabes que na cidade há muitos que sofrem de solidão.

Talvez convenças os teus pais a voltares á escola. Talvez encontres um amor e te entregues nos seus braços. Talvez ele te queira domar essa natureza selvagem. Talvez engravides, sejas maltratada pela vida.
Talvez percebas depois que não era esse tipo de rapaz com que sonhavas nos sonhos bons. Que vives uma vida que não sonhaste para ti.

Talvez entre uma lágrima e outra recordes o sol da montanha e lembres o eco do teu nome dentro de ti, como quando o gritavas para ele ecoar pelos vales. Talvez lembres o Pantufa, a dureza do pai e da mãe. Talvez lembres dos cabelos longos e do zelo com que os escovavas à porta da entrada, perdida no mundo dos sonhos. Talvez lembres do verde do chão e do azul do céu de que eras senhora. Recordes talvez do ar puro que inspiravas para encher os pulmões. Recordes a água fria, o lavar do rosto. Recordes a teta da cabra onde mamavas, lembres das ovelhas e das vacas. Do tempo em que eras uma pastorinha…
Talvez lembres da liberdade que sentias quando corrias solta pela montanha, naquele tempo em que pensavas que não sabias o que era liberdade. Porque a tinhas, mas pensavas que não.
E recordes tudo isso, com saudade.
Mas aposto também, que agreste como és, entre uma hora e outra, quando a lua já for alta, no meio da saudade, apesar de tudo, vais sentir-te feliz.
Porque ultrapassaste as barreiras onde te sentias prisioneira, porque descobriste por ti que o mundo, afinal, é um lugar estranho. E se o resultado não foi o que desejavas, pelo menos, lutaste. Pelo menos, foste capaz.
Apenas porque conseguiste voar…


"Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz."

Alberto Caeiro

publicado às 21:50


Confessionário

De Victor Nogueira a 07.10.2007 às 23:31

Olá, simplesmente. Serve uma presença silenciosa?
VM :-)
PS Foi difícil chegar aqui.
Tanto que no Verde Água deixei este comentário:
«Victor Nogueira disse...
Viva
A tua segunda «amiga» referida neste post construiu um puzzle para «confissões» ou criou um círculo vicioso qual labirinto cuja saída constitui a resposta à esfinge?
Abraço
VM

Domingo, 07 Outubro, 2007»


De puttyc a 08.10.2007 às 10:13

Eu não escolheria melhores palavras para concluir a "reportagem".

Fabulosa esta tua visão, sobre uma realidade, que para nós, Meninos de Cidade, nos estranha na pele.

Deixo-te um beijo

De tania a 08.10.2007 às 16:07

Sempre estamos a aguardar-te.

De Sofia a 09.10.2007 às 15:47

Fantásticas palavras... Adorei o post. A descrição. O tom coloquial do que escreves e o que escreves. E o post, em jeito de homenagem.

E (re)ler-te de novo.

Bjinho*
Sofia

De Anita a 09.10.2007 às 17:01

O "mau" dos sonhos é muitas vezes tornarem-se realidade... Jinhos *

De Kalimeru das Tascas a 11.10.2007 às 01:41

Olá Raquel.Tu não me conheces e eu não te conheço mas a tua vida cheira mal e não se aconselha.És uma grande vaca mutante que se alimenta dos restos de uma vida putrefata.Ler Alberto Caeiro?Bem que podias ir para o caralho por dinheiro.Poemas da merda?Vê-se logo que és lerda.A tua mãe ainda deve andar a ter consultas para debelar a frustação que foi cagar-te cá para fora há mais de 30 anos.Ainda tás a tempo de ir para puta e fazer mamadas no vão das escadas por 30 cêntimos.Raquelinha,metes nojo e não é pouco.Vai-te foder e boa noite.

De Nene a 11.10.2007 às 13:31

BoaZona, em jeito de confição vou-te dizer. Tenho medo do futuro desta Rosa... não tem espinhos. beijos

De Ricardo a 11.10.2007 às 23:25

Comentei um texto teu referente à solidão de 2005, encontrei-o por acaso e estou a gostar do teu blog. espero que continues, aliás lembrei-me que gostava de fazer o mesmo mas não tenho coragem (por várias razões). Embora nem saiba se queiras saber ou não do que digo, acho interessante interagir assim com alguém desconhecido, é misterioso..., e por isso excitante!
Espero que a Rosa veja rápido o tal rapaz a saltar-lhe da janela do seu quarto.

ps:sempre que leio alguma coisa do Fernando lembro-me sempre da Lídia que entrelaça as mãos com o Ricardo à beira do rio que segue sem perturbações

De Ruby a 12.10.2007 às 13:29

Olá Rakel, é curioso que tb eu me recordo da Rosa inúmeras vezes e deparar-me com a tua percepção desta vida e destes sonhos aliado ao poema de Alberto Caeiro foi como se entrasse em comunhão com os meus pensamentos. Parabens.

De SONZA a 13.10.2007 às 12:25

Ol

Diz lá


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