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Um dia comum...

Confessado por Mulherde30, em 11.03.07

johannes barthelmes.jpg
Fotografia; Johannes Barthelmes

10.00 – Toca o despertador. Juro que um dia, ainda o mando pela janela.
Um duche, o pequeno-almoço. Estou sozinha em casa, hoje.
Um sol de plena Primavera brilha lá fora. Calças de ganga, ténis, camisola em tons alaranjados, brincos. Nada de maquilhagem. Não me apetece e a noite foi longa. Um creme de rosto e estou perfeita. Mala de tiracolo, óculos de sol, entro no carro, ligo o rádio e sigo caminho.

11.00 - Esplanada, café, cigarro, jornal.
Uma ida à feira. Alface, tomate, cenouras, pimento vermelho.

12.00 – Almoço: creme de cenoura. Tostas com patê de delicias do mar. Uma maçã Fuji, uvas Red Globe.
Lava-se a louça. Começo nas limpezas. Detergentes, panos e esfregões. Mistolin da loja dos 300 é milagroso nas gorduras.
Troco de roupa. Fato de treino, a maratona vai ser longa.

14.00 – Tiro cortinados, lençóis, toalhas. Máquina de lavar. Sacudo tapetes, deixo-os estendidos ao sol, como cobras. Arrasto móveis, troco tudo de sítio. Queria mais luz neste quarto. Tiro o colchão. Mudo capa de edredão para laranja forte, alegre. Limpo paredes, vidros e candeeiros. Aspiro, limpo o pó, esfrego o chão, de joelhos.
Casa de banho… óptimo. Cif com lixívia. Aqui vou esfregar cada azulejo, um a um.
Gavetas… as das roupas dificilmente estão em desarrumo. Gaveta das meias de algodão. Gaveta das meias de Lycra, de ligas e de fantasia (gosto desta gaveta, da fantasia). Gaveta das asa delta coloridas. Gaveta das tangas rendadas, arrumadas por cores. Gaveta dos soutiens para qualquer apetite. Tudo arrumado. É pena… se estivessem desorganizadas, ocupava-me um pouco mais. Seguinte.
Chego àquela onde guardo tudo o que não é preciso mas que tem valor e é importante. Não me decido a pôr nada fora. Continua tudo lá. Bilhetes de cinema, caixas de fósforos, pacotes de açúcar, números anotados em papel que nem sei de quem são, os bilhetes que me deixam no pára brisas do carro, canetas, isqueiros, pensamentos soltos, porta chaves, velas de aniversário, convites de casamento, um relógio, uma pilha, lâmpada, preservativos, cornetas, línguas da sogra, apitos, flores secas, cartas, a minha aliança de casamento, uma bíblia pequena, uma foto onde estou de sorriso preso no tempo e uma boca que me beija a cabeça que não sei de quem é.
Tudo coisas que não fazem sentido e que guardo mesmo assim.
Estendo a roupa, passo outra a ferro, guardo-a.
Faço a cama de lençóis lavados, às bolinhas de várias cores.
Ordeno os CD’s e os livros como sempre quero que estejam e que nunca mantenho.
Toca o mesmo CD repetidamente.

18.00 – Vou lanchar. Cerelac. Com leite.
Respondo a algumas cartinhas que tenho pendentes na caixa de correio.
19.00 – Supermercado. Cera depilatória. Bolbos de tulipas. Um vaso. Uma fila só para pagar isto. Tortura. As crianças nas birras atiram-se para o chão. Um homem atrás de mim pergunta à mulher que o acompanha: mas para que é que levas isso?
Gosto de tulipas. Têm uma beleza que dura pouco, mas existe, fica depois para sempre na memória. As cores. O formato simples e delicado. Frágil até. Enquanto espero leio as indicações. Para florir na Primavera, plantar no Outono. Mas tenho a certeza que as vou fazer brotar antes do Verão. Como em tudo o que se semeia, sempre depende da fertilidade da terra. Num mau coração, dificilmente nascem bons sentimentos. Distraio-me a pensar nisso enquanto não chega a minha vez.
Encontro um amigo. Um café expresso ao balcão, põe-se a conversa em dia e lá vem a pergunta:
- E tu? Continuas sozinha?
- Nem sempre. Há dias em que estou mais sozinha que outros.
- Parece impossível…
Deixo a conversa por aí. Motivos há mais que muitos. E nem sequer quero entrar em detalhes.
Regresso a casa.
20.00 - Água a ferver. Corto tomate, pimento, cenoura, cebola, alho e com azeite coloco ao lume. Misturo o miolo de camarão, cogumelos, atum, ananás. Tempero. Junto natas. A água já ferve, junto o fusilli. Vou barrando pedaços de pão com manteiga enquanto apura o jantar. Aqueço um pouco do creme de cenoura do almoço. Faço salada.
Preparo a mesa. Uma vela, copo de cristal. Uma garrafa de vinho verde que me custa a abrir. Está pronto. Misturo a massa com uma mistela que cheira bem numa travessa que combina com os pratos.
Como a sopa, ouço os Finger Tips e delicio-me com a massa. Bebo um pouco de vinho.
Arrumo tudo. Outra vez.
Uma mensagem: Olá mulher linda. É hoje que tomas um café comigo ou já tens compromisso?
Respondo: já tenho compromisso.
22.00 - Depilo a caniche. Estilo brasileiro. Dizem. Eu digo que é ao estilo Raquel e que dói como o caraças.

23.00 - Encho a banheira de água quente. Mergulho e deixo-me ficar. Fumo um cigarro e envolvo-me no nevoeiro que se acumula. Abraço-me e finco as unhas na pele. Toco os seios, em jeito de pólen, os mamilos endurecem. O percorrer das gotas de água, num deslize suave sobre a pele que provoca um arrepio e o torpor dos sentidos.
Deixo de pensar, de sentir, de existir…
Fica em mim o cheiro a Dove de noz de macadâmia. Passo um creme no corpo, visto roupa interior em rosa choque, um pijaminha de algodão. Podia vestir uma dessas camisinhas que não resisto a comprar, transparentes e sensuais. Mas depois vou sentir frio. Opto pelo pijama cor de laranja. Cor da coragem. Seco os cabelos. O que resta deles…
Esforço-me e dou um jeito às mãos tão massacradas hoje.
Vou à varanda. Olho o céu. As estrelas tão perto.
A noite está deliciosa. Noites assim, sempre fazem despertar em mim desejos de pele, de encontro, de ternura. Ou selvagens e urgentes. Tentações da carne, da pele e da alma.
Acendo a lareira. Não está frio, pelo contrário. Mas apesar da noite amena, preciso de um aconchego. E sempre me sinto assim, à lareira. A ouvir o crepitar da lenha, as cores do fogo, as sombras nas paredes.
Não quero televisão. Não me sinto inspirada. Duas pinceladas no quadro e desisto. Não me apetece. Sinto-me num embalar doce e embriagado que me faz desejar fazer nada. Fico a ler “Kafka à beira mar” de Haruki Murakami.

00.30 – Sento-me ao computador. Estou estourada. Não é fácil o caminho por onde me obrigo a seguir. A disciplinar o coração e a boca. Estou a aprender, pelo menos. A esconder os pensamentos e a deixar de falar dos sentimentos. Principalmente dos que vão alem do que conheço. Daqueles que não consigo explicar, que não lhe sei o nome. Por isso os calo em mim. Silencio-os. Ou são eles que já são silêncio porque alguém os calou. Aceito-os, mesmo sem saber o que são, sem entender o que fazem cá dentro de mim.

Em menos de nada, mergulho no cheiro a coisas limpas. A minha alma também podia ter ido à máquina de lavar.
Vou deitar-me e tentar dormir. Fechar os olhos para que, quem sabe, veja tudo melhor. Num vale tranquilo de lençóis, onde os pensamentos são livres e o coração deixa de ser meu. E tudo fica muito maior e muito alem do horizonte que posso alcançar.

Cansei o corpo… e vês como não pensei em ti?


publicado às 00:42


Confessionário

De mi a 11.03.2007 às 16:39

Quase parece conseguirmos até pararmos. E no cansaço do dia, depois de tentar lavar a alma em mil actos, mil pensamentos, sorrateiramente surge aquela pergunta: "Porque é que não estás aqui ?"

De Bruno a 11.03.2007 às 21:04

Sabes, soa-me a conhecimento, talento e muitas das vezes descontentamento...
Já me refleti nessa letra Aerial em Tamanho 9, onde os dias obrigatoriamente transpirados seriam valiuns para uma noite poder ser descansada...talvez um dia, um raio de sol da caparica te leve de bom tom um brilhante sorriso meu, enquanto te surrurra ao ouvido...Grande Mulher que és!!Beijoca

De conde a 11.03.2007 às 22:20

Daqui do lado obscuro das sombras ficou registado que a raquel está com um espirito renovador(!).Mesmo que seja em função (de)ou por causa (de)não importa,é preciso é atitude.E já agora tambem fiquei a conhecer um pouquinho mais de ti,o que para o casoé irrelevante...mas bom!

De Diana a 12.03.2007 às 12:26

Limpezas de Primavera em tua casa e no teu cora

De M a 12.03.2007 às 12:47

Acho que devias abrir mais os horizontes. N

De Tan Solo Palabras a 12.03.2007 às 13:16

Pode parecer uma tolice. Mas adoro dias assim, em que a solidão me faz companhia. Em que me sinto preenchida com pequenas (ou grandes) tarefas domésticas, quando a falta que sinto de alguém a meu lado não me vence. Um beijo

De nene a 12.03.2007 às 13:33

BoaZona, Tudo normal até as 22:00h, apartir das 22:00h já só me dá vontade de uivar. Adoro essa raça canina. Au,Au,Au..... Beijos.

De Brain a 12.03.2007 às 15:23

"… e vês como não pensei em ti?" Não?!?!?!

De Lu a 12.03.2007 às 15:31

Oi, um amigo me indicou teu blog. Gostei dele.És muito sincera no que escreves. Voltarei para ler mais. Ah, sou mulher de 35... srsrsrs.
Um abraço!
Lu.

De lua cheia a 13.03.2007 às 00:50

Limpamos as impurezas da casa quando sentimos a nossa alma nublada, mas, independentemente da forma, os dias s

Diz lá


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