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la vita prima di vivere...

Confessado por Mulherde30, em 05.02.07

antonio jose calado de sousa.jpg
Fotografia: António José Calado de Sousa


O tema pode ser delicado, mas isso nem sequer é motivo para eu não pensar nele e ter a minha opinião.
E aqui, meu confessionário, posso dá-la sem saber se vou ou não contra a posição dos outros. Mas não quero, apesar de tudo, ferir susceptibilidades.


Tudo isto me dá um nervoso tão miudinho cá por dentro, que sou bem capaz de ir procurar o meu cartão de eleitor e desta vez, ir votar.
Pergunta manhosa, dizem uns, enganosa dizem outros. Não sei... mas arrisco a interpretar a pergunta tal qual ela é feita.
Até porque posso nem me dar bem com politica, mas o tema vai muito alem disso...


Se me perguntarem se sou a favor do Aborto, a minha resposta é simples: Não.

Mas inevitavelmente, eu que não sou exemplo para ninguém, consigo pensar no lado que não conheço.
Pensar porque é que uma mulher decide abortar. Mesmo que com esforço nunca consiga colocar-me na sua situação, posso compreender perfeitamente que se o faz, só pode ser por desespero.
Só em desespero se mata e se morre.

A quem me diz indignado que em situação alguma uma mulher deve abortar voluntariamente, pergunto sempre o que pensa sobre uma mulher que é violada e engravida desse violador e decide abortar, ou essas mulheres ainda meninas que engravidam do próprio pai que decidem o mesmo.
A resposta é sempre a mesma:
- Ah, mas isso é diferente!

E diferente porquê? Pergunto eu…
Sim, porque o desespero não é maior do que o das outras que decidem o mesmo. Para cada uma, a sua situação é limite. Para cada uma o seu problema é maior que o do resto do mundo.

Eu duvido que alguma o decida fazer só porque sim, de ânimo leve. Como quem comprou um par de ténis e depois, quando chega a casa percebe que afinal não gosta assim tanto deles e já nem os quer.
E acredito que cada uma que o faça, mais que marcas no corpo, ficará para sempre com essa lembrança na alma. Sempre que vir uma criança brincar e pensar que o seu filho teria aquela idade, sempre que vir uma mulher grávida, lembrar que rejeitou ao seu corpo esse estado de graça.

Mas as situações que levam alguém a pensar sequer nisso, como já disse, devem ser de duvida, desespero, agonia, quase sempre em silêncio e sozinhas. Seja porque motivo for.
Existe ali uma vida, sim. Mas não saberão disso as mulheres que optam pelo aborto?

Mas a minha revolta nem vem por aí… vem por outro lado.
Vem por mulheres que não o fazem e depois, à nascença os matam, os abandonam. Crianças que nascem sem serem desejadas, que são rejeitadas e colocadas num mundo à parte. Crescem sem mãe, sem família, sem amor. Que passam fome e muitas vezes nem sonham que alem da vida em torno de caixotes do lixo, há outra vida, muito maior. Crianças que simplesmente nem sonham…Crianças a quem não tiraram a vida ainda no útero e obrigaram-nas a existir sem poderem viver essa vida que não lhes tiraram.
O que é mais cruel? A morte ou o abandono?

Revolto-me com a igreja que fala da família quando nem sequer lhes é permitido terem uma. Que dizem que só Deus pode tirar a vida.
Esses “cristãos”, senhores da palavra, que escondem por trás de muitas batinas uma família clandestina. E como eu gostava de saber o que faziam eles às crianças que lhes nasciam dentro dos conventos! (processem-me!)

Revolto-me por ouvir as vozes que me entram dias seguidos pela casa dentro proclamando as suas verdades sem lembrar as verdades das que sofrem.
Revolto-me porque se perdem horas a fio numa questão, sem abordarem os porquês.
Porque aquela menina de 13 anos, se aparecer em casa grávida, o mais certo é que acabe, ela e o filho, na rua, à mercê de um chulo qualquer. Até porque ela quis a ajuda do seu médico de família… mas consulta, menina, só daqui a 3 meses!
E aquela a quem a felicidade de uma gravidez pouco tempo durou porque o pai da criança simplesmente usou a violencia das palavras.
Ou a outra, que já não tem o que dar de comer aos seus filhos e engravida outra vez. Mas não te preocupes. Que a falta de dinheiro não te faça pensar em abortar, até porque no teu país, existe um abono que ronda os 25€. Como vês, podes dar uma boa qualidade de vida à criança que vai nascer.

(E quem pode condenar a atitude de quem se sente encurralado e completamente só? Irão dizer-me que são mulheres de fraco caracter? Fracas?)

Perde-se o tempo a falar no aborto em vez de se ganhar esse tempo na educação sexual na escola, em vez de se incentivar os pais na abordagem desse tema difícil da idade, em casa, com os filhos.
Perde-se o tempo a falar do aborto em vez de o dedicarem à prevenção, em vez de falarem de contracepção. Em vez de o dedicarem ao apoio que tanto falta.
Talvez um dia eu veja tanto tempo de antena dedicado à prevenção da gravidez, como os vejo a debruçarem-se, convictos,sobre se as mulheres devem ou não abortar voluntariamente.

É incrível pensar que há mulheres que viram o mundo para serem mães. E outras há, como ironia do destino, que por qualquer motivo, não os podem ou não querem ter.
E não é assim em tudo?

Mas o que me incomoda mesmo, é viver num país onde se levantam altas vozes que são contra essas mulheres e que muitas vezes nem sabem o que no passado fez a mulher que hoje dorme com eles. Ou altas vozes femininas que nunca sentiram na pele uma agonia a corroer-lhes, por dentro, devagar.
Vozes que insultam e condenam quando não sabem.
Vozes que humilham porque se sentem maiores a qualquer outra vida.

Mas, mesmo parecendo uma pergunta estúpida, com que cara é que num país ainda vêm falar em julgamento de mulheres que se submetem ao aborto voluntário, (para muitas antigo desmancho), quando em qualquer lugar existe à venda a pílula do dia seguinte?

Ah, isso já não é matar, certo? Pois, possivelmente vão dizer-me que isso é diferente…


Se me perguntarem se sou a favor do Aborto, a minha resposta é simples: Não
Se me perguntarem se sou a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, a resposta é simples da mesma forma: Claro que sim.

publicado às 21:00

Rir (ainda) é o melhor remédio...

Confessado por Mulherde30, em 04.02.07

amanda com.jpg
Fotografia: Amanda

Saí com um amigo.
Só para beber um café, disse-me ele.
Eu fui...


Precisava ir.
Estou a passar demasiado tempo em casa. O que significa demasiado tempo comigo. O que me leva aos limites de mim, porque sempre vou passando em frente ao espelho onde me vejo de alma nua. E nem sempre é fácil olharmo-nos assim, reflectidos, tudo o que somos cá por dentro, no fundo onde faz eco.
Avaliando caminhos e concluindo que tudo foi necessário. Concluindo que tudo teve como conclusão um "melhor assim". Mesmo que esse melhor assim, só nos tenha feito sofrer. É uma forma de justificarmos a dor. Acreditar que depois da tempestade vem a bonança e que se Deus nos fecha uma porta, com certeza nos abre uma janela. Dizendo que o que tiver que ser, será, para ver se acreditamos no que dizemos. Como que num passe de mágica o destino nos trará o melhor, mesmo que na falta de coragem, se fique estendido no sofá a ver televisão, à espera que ele faça tudo sozinho.
Tudo teorias... Porque as marcas ficam-nos cá, tatuadas na mente, na história, no coração.
Seguimos fingindo...
E estando muito tempo em casa, privo o mundo deste corpinho. E nem sei se algum dia Deus me vai perdoar por isso.
E depois, penso demais, sonho demais, imagino demais, idealizo demais, desejo demais.
Tudo demais.
Só dou por mim a viver de menos.


Uma conversa agradável, daquelas que a meio não sabemos se o outro está a falar precisamente do mesmo que nós. Mas é por isso que fica mais fácil deixar sair o que temos escondido nos recônditos lugares do nosso peito. As torturas, os fantasmas... Supomos que sabemos do que o outro fala sem comentar o que está por trás das palavras, sem sequer se falar em coisas concretas, sem lhes dar nomes. Situações diferentes que provocam os mesmo estados de espirito. E deixamo-nos levar... porque não conhecemos a história, mas o sentimento é-nos familiar. Partilhamos, cada um o que sente, quando tudo o resto é tão diferente... Não se fazem perguntas. Falamos apenas.


Ao sair do bar, ele fez questão de pagar. Eu não gosto muito disso, muito menos quando me dizem que pago na próxima. Como se já estivessem convictos que vai haver uma próxima. Ou me dissessem nas entrelinhas que eu pago mais tarde, com o corpo.
Isso porque não sabem que este corpo aqui é sagrado.

Mas eu precisava trocar dinheiro. Dirigi-me ao balcão e de nota na mão, disse ao empregado:
- Troca-me por favor?

Ele olhou para mim, franziu a testa e respondeu-me seriamente:
- Trocar? Eu não! Não te vejo defeito nenhum, fico contigo mesmo assim!

E sorriu-me...


Eu fico feliz por existirem homens assim. Que me fazem sentir que ainda posso sair de casa para que me aconteçam estas situações que me ficam na memória.
Homens que me surpreendem...
Homens que me fazem querer voltar...
Homens que me deixam sem resposta...
Homens que me dão esperança, que um dia, quem sabe, tenha pertinho de mim alguem assim, que não permita que eu esteja dias a fio deitada no sofá, enrolada em mantas polares, à lareira, lendo um qualquer livro e a vasculhar-me demais... alguem com humor, que me embale em loucuras saudáveis, que me faça sentir amada e desejada, que me deseje às horas mais absurdas do dia. Que tenha coragem, que siga os desejos muito mais que a razão. Sim, quem sabe um dia...

Existem homens assim. Que do nada nos aliviam a alma, nos enternecem o peito...
Mas acima de tudo, homens que me fazem rir, para compensarem de alguma maneira, os outros... os que me fazem chorar.

publicado às 00:33

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