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Conversas de final de tarde (parte I)

Confessado por Mulherde30, em 13.04.05

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- Estás por cá?
- Estou...
- Espero-te à saída...esta noite és minha.
- Mas...

Mas nada. Desligou o telefone sem me dar tempo de responder que hoje precisava dormir cedo. Pouco importa. Que venha. Até saberá bem, com certeza.

Saio do trabalho e ele está ali de óculos escuros a sorrir-me.
Chego-me a ele e vem aquele abraço apertado... de saudade.
Moramos perto e passam-se meses sem nos vermos nem nos falarmos. Procuramo-nos quando a mágoa nos carrega demais. Ele procurou-me...sinal que precisa de mim esta noite. Sinal que precisa do melhor de mim.
Entramos no carro e a musica prova-me que ele está triste, que mais uma vez foi derrotado numa batalha de amor. Pouco falamos... eu sei que entre nós, quase nunca são precisas palavras... há muito que passámos esse patamar. O silêncio não magoa nem fere.
Não pergunto onde vou. Temos sempre este ritual. Sei que vamos ver o pôr do sol, sei em que praia, sei em que restaurante vamos jantar...sei que vamos recuperar energias, carregar baterias para aguentar mais uns quantos abanões da vida. E dá sempre resultado.

A vista aqui é magnifica. Tão intensa.

No restaurante, à luz de velas, quase parecemos um casal apaixonado. E somos, à nossa maneira.
Falamos de tudo o quanto lhe consome a alma. Eu escuto cada palavra. E ele diz-me:
- Nestas horas não há com quem possa estar além de ti. Ouves-me. Dizes-me as palavras certas que nem sempre são as que gostava de ouvir. Falo contigo como se pensasse, falo de tudo... não sei como nunca acabámos na cama depois destes anos todos.
- Se isso acontecesse estragávamos isto, não concordas? E depois, quem ia ouvir as tuas queixas em relação a mim? Há amigos que não consigo ver como homens e homens que não consigo ver como amigos... e tu sabes que quando encontrei um em que juntei os dois, acabei de aliança no dedo...

Adivilho-lhe o peito mais leve...sinto-o mais orientado.
Aos poucos vamos voltando às conversas sem sentido algum. Lembrando épocas e acontecimentos que de quando em vez nos trazem a lágrima... por felicidade. E rimos.
É num desses sorrisos que me diz emocionado:
- Num sorriso teu esqueço quase tudo. Quando ris assim, é como que se me oferecesses o que de melhor tens em ti. É esse sorriso que me faz lembrar sempre de ti. Custa-me crer que continuas sozinha.
- Ora, sabes que ninguem me quer. Mas tu, com todo esse charme continuas assim tambem. És amigo, leal, sincero, tens esse humor que me conquista e que deve conquistar todas as outras e no entanto...
- Elas escolhem sempre os filhos da puta.
- Tens toda a razão. No amor todas as tuas virtudes viram defeito. Era tão fácil se pudessemos escolher... era tão fácil que nos podessem ver...
- Tu mereces que te vejam...que vejam como realmente és. Ao longo destes anos tornaste-te numa mulher completa. Das mais completas. Nunca sabes muito bem o que queres, sabes perfeitamente o que não queres. E toda tu és tão simples. Talvez por isso tenham medo de ti. Não precisam de te oferecer seja o que for... basta que te amem e que sintas isso, basta que te digam as palavras certas e que acredites nessas palavras.
- Tenho as mãos cheias de nada para dar... somos os dois uns gira-sós. A vida gira, gira e nós sempre sós.


Porque não posso amar alguem assim? Que traz a doçura estampada no olhar? Que traz na boca as palavras que o coração não cala?

Tiro um cigarro.
- Continuas a fumar...
- Tenho que ocupar a boca com alguma coisa... e na falta de melhor, fumo.
- Isso faz mal.
- O tabaco é como o homem: provoca morte lenta e dolorosa, ataques cardíacos por nos fo***** os cornos, provocam o envelhecimento da pele pelas neuras que causam,contêm uma quantidada enorme de merdas que causam dependência, há os que nos causam impotencia, outros que são verdadeiros cancros pulmonares porque nem nos deixam respirar... e mesmo assim, para largar o vicio, muitas vezes precisamos de ajuda médica.
- Só tu para me fazeres rir... mas isso quer dizer que continuas a comer iogurtes...
- Sim, para lhes lamber a tampa. Quero ver se não me esqueço das coisas...tenho que praticar.

Dá-me a mão e saímos dali.
- Vamos?
- Claro... a esta altura não podemos quebrar o ritual.
- O que era de mim sem te ter por perto?

É por ter perto de mim pessoas assim que sou feliz... pessoas que vêm o que os outros não conseguem alcançar, pessoas que me acompanham e que mesmo nem sempre presentes, a distância não consegue afastar...pessoas como ele... que através da amizade me ama da forma mais bonita que se pode desejar... a quem retribuo essa amizade com o melhor de mim, o melhor que sei, o mais que consigo...

publicado às 12:59


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