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(re)viver...

Confessado por Mulherde30, em 07.10.05

(fotografia retirada por denuncia ao Sapo, referindo-se aos "direitos de autor", quando a mesma tinha referido o nome do autor da fotografia)

Agora que estou a chegar, sinto o coração acelerado. Talvez seja pela imagem que vejo de mim reflectida no vidro. Já é de noite...já é quase hora.
Atendo o telefone e dizes-me que tens o coração a bater. Eu digo que sim, que ainda bem, que não me apetecia nada que morresses agora.

Ainda o combóio não parou já os meus olhos desconcertados tentam encontrar-te.
E vejo-te. Cinco anos depois....tu ali, à minha procura. Tal como naquele tempo...eu sentada na areia a ver-te lá ao longe na beira da água que ias e vinhas sempre tentando descobrir onde eu estava. E eu a rir-me para dentro, de caçoada, por te observar já aborrecido ao achares que eu tinha falhado ao prometido. E tu viste-me. E sorriste...


Desço do combóio, e chegas-te perto de mim. Não digo nada, não faço nada, fico só a ver-te. Para gravar outra vez tudo na memória...como se fosse "antes e agora".
E tu parado, talvez a fazeres o mesmo.

Continuas tu em tudo...mais gordo, com menos cabelo, mas tu. Esses olhos de mar onde um dia me perdi, olham-me como se fosse a primeira vez...

Ficamos ali, de sorriso saudoso de um tempo em que fomos uma época feliz...
Agarras-me num abraço apertado que retribuo com toda a força que a saudade pede.
É saudade sim...nem sabia que existia tanta aqui! Por vezes precisamos de bater de frente contra a vida para saber o quanto guardamos em nós, com carinho...

Continuas linda, que saudades tuas, dizes-me tu.
- Tambem eu senti a tua falta....

Agora, de volta à minha realidade, faço um puzzle dos pedacinhos que vivi, retalhos de uma história que continua por acabar...
Lembro um tempo que foi à uma eternidade e que parece ontem. E não terá sido? Não, parece-me que fui apenas viver mais uma parte da história, algo que faltava lá atrás... Como se fosse um capitulo perdido no meio de um livro que ainda não terminámos de ler...parece-me.
De alma leve, sinto o dever cumprido. Ainda bem que parti, ainda bem que estive contigo. Só mais uma vez. A ultima?
Não podia ter sido doutra maneira... nós encontrámo-nos para reviver uma história de fantasmas, uma história arrancada do passado. Por isso escolhemos uma cidade estranha, onde não houvessem correntes que nos podessem amarrar, por descuido.

O que tivemos é tambem uma forma de amor....à nossa maneira. Quando é que se passa a linha ténue do gostar para o amar? O gostar não será tambem uma forma de amor?Porque tambem se ama no carinho. Porque há os amores que não duram para sempre mas que podem ser eternos, que não se esquecem. E nesta história o amor existe porque podemos ser livres. Porque eu posso ser eu, tu podes ser tu. Porque acima de tudo, amo o que sou ao estar contigo. É esse talvez o nosso amor. Um amor diferente, que não nos prende.


E agora aqui, sozinha, sabes o que trouxe de ti? Tudo!
Trouxe os teus olhos azuis. Trouxe os teus dedos que tocam ao de leve na pele.
Trouxe tu, de corpo molhado de toalha enrolada a saltares para a cama com esse sorriso tão cheio de ternura!
Trouxe a tua lingua a deslizar nas minhas costas em descobertas matinais por baixo dos lençóis.
Trouxe a tua voz a cantar-me uma lenda em tom de fado...
Trouxe o sol que bate no vidro da janela de um quinto andar de hotel.
Trouxe o calor dos teus lábios...a leveza de espirito, a sinceridade que sempre te admirei.
Trouxe-te deitado no meio de lençóis brancos, amarrotados a veres-me assim, perante ti, nua.
Trouxe o gosto dos beijos, os sabores, o sugar da alma.
Trouxe tu a levantares o lençol e a prenderes-nos lá em baixo, como se quisesses apenas esconder-te do mundo, ou de ti...trouxe o teu cheiro de novo preso em mim.
Trouxe o bater do teu coração, o sillêncio do quarto quando, já aurora, adormecemos de corpos nus, enroscadinhos.
Trouxe tudo e deixei tudo de mim. Para que, quem sabe, neste instante me recordes tambem. Não custa tanto assim deixarmos pedaços de nós em alguem...

E uma vez mais a história ficou lá atrás, para quem sabe um dia, com jeitinho, se pegar nela outra vez, para sentir que estamos vivos. Para se sentir a palavra liberdade que nos rasga o ser querendo ser livre.

Fazemos a viagem para a estação...agora sim, custa.
Vamos lado a lado, sentados no banco traseiro do táxi sem dizer palavra. Olho as paredes da cidade, as árvores, o movimento. Toda a vida continua sem se dar conta de quantos muros nós derrubámos em conjunto para estarmos hoje aqui. E os nossos muros nem são assim tão intransponiveis, afinal.
Ninguem sabe, ninguem repara nem ninguem quer saber...o mundo continua igual...o Tejo além, na sua preguiça que escorrega devagar.
E eu a lembrar a ultima vez que estive aqui, o coração a ficar apertadinho...
E nós dois, de mãos dadas...como se tivessemos medo de nos perdermos um do outro...a caminhar na pressa de quem não o quer fazer.

Parto num combóio tardio e trago na bagagem as tuas palavras:
Não vás já. Fica só mais um dia. Só mais hoje.

E eu a abraçar-te com um coração a querer rebentar porque as despedidas doem-me sempre. E os olhos rasos de água, prendendo as lágrimas para não chorar, não agora.
Cheiro-te para te trazer comigo, beijo-te e digo-te ao ouvido:
- Até daqui a cinco anos...
E entro sem te olhar para não sentir o peso dos teus olhos, para que não vejas os meus humedecidos.

Não posso dizer adeus...
Duas horas de viagem ouvindo musicas que me deixam percorrer de novo cada segundo, cada palavra, cada gesto. Só para não esquecer, só para guardar junto a todas as outras imagens que me fazem companhia em noites em que lembrar as coisas boas ainda é o melhor...

E quando saio na estação com cheiro a maresia, sorrio.
E murmuro baixinho na esperança que o teu espirito me possa ouvir:
- Até daqui a cinco anos...e se não for pedir muito, pensa em mim, só para que nada tenha sido em vão...

publicado às 00:55


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